Chuvas no Ceará já causaram ao menos quatro mortes, desabamentos e alagamentos

Casos foram na Capital e no Interior. Planejamento urbano deve prever ocorrência de desastres.
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Diversas cidades do Ceará enfrentam transtornos após chuvas intensas registradas desde janeiro. Pelo menos quatro mortes foram confirmadas em diferentes regiões, até essa segunda-feira (27), vítimas de afogamentos, desabamentos estruturais e falhas na infraestrutura viária acentuados pela força das precipitações.

As ocorrências, que se estendem da Capital ao Interior, revelam fragilidades urbanas diante do volume de água. As mais recentes se deram nessa segunda: a morte de um motociclista após a abertura de uma cratera na CE-025, em Aquiraz, e o desabamento de parte de um hotel em Tianguá, na Serra da Ibiapaba, que também resultou em um óbito.

A primeira vítima por conta das fortes chuvas em 2026 ocorreu em 27 de janeiro, data em que Fortaleza registrou 125 milímetros (mm). Um adolescente de 15 anos tomava banho no Rio Maranguapinho com um amigo, utilizando uma placa de isopor, quando foi levado pela correnteza. O corpo foi localizado por moradores da área após oito horas de buscas no bairro Granja Portugal.

Em 18 de abril, um acumulado de 123 mm causou o desaparecimento de um homem na mesma região. Ele tentava atravessar a rua Humberto Lomeu quando foi arrastado para dentro de um canal. O corpo foi encontrado por mergulhadores do Corpo de Bombeiros dois dias depois, no município de Caucaia, a cerca de 4 km do ponto de desaparecimento.

Quase simultaneamente, às 5h30, parte do Hotel São Francisco, em Tianguá, desabou. O prédio, localizado no Centro da cidade, possuía três andares e 36 apartamentos. Segundo a TV Verdes Mares, os bombeiros retiraram dos escombros o corpo de um homem identificado como Ítalo Dantas da Silva, de 29 anos. Natural de Recife, em Pernambuco, a vítima estava na cidade a trabalho.

Nas redes sociais, o governador Elmano de Freitas lamentou profundamente as vítimas dos casos de desabamento em Tianguá e em Aquiraz. “Determinei medidas imediatas das secretarias do Governo. As nossas equipes do Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Polícia Militar e de outros órgãos estão trabalhando de forma ininterrupta”, declarou.

No caso da cratera de Aquiraz, o gerente de Manutenção da Malha Viária da Superintendência de Obras Públicas do Ceará (SOP), Saullo Câmara, explicou que a hipótese inicial foi de “um problema causado pelas chuvas, de erosão do dispositivo de drenagem” – ou seja, um colapso no sistema de escoamento da água.

Segundo o técnico, o solo arenoso pode ter facilitado o deslizamento da pista, exigindo a criação de desvios para manter o fluxo de veículos. Os trabalhos de recuperação da área devem durar cerca de uma semana para restabelecer a segurança.

Em dias de chuva intensa, a Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil do Ceará (Cedec) recomenda que a população fique atenta a sinais como rachaduras, inclinação, estufamento, infiltrações e solo cedendo ao redor. Ao identificar qualquer indício, é preciso evitar a área e, em caso de risco imediato, acionar órgãos de emergência pelo número 193.

Prejuízos urbanos e para o turismo

Segundo a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), quanto menor for o tempo em que a chuva cai, maiores são os efeitos de sua intensidade, tais como alagamentos e deslizamentos de terra. Nos últimos quatro meses, além das vidas perdidas, as precipitações deixaram um rastro de destruição material e impactos econômicos no Estado. 

Em Tarrafas, no Cariri, no início de março, as chuvas provocaram o aumento do nível dos rios Bastiões e Felipe, comprometendo passagens e deixando moradores da zona rural temporariamente isolados em algumas áreas. A situação foi acompanhada pela Cedec.

Em Caucaia, vizinha a Fortaleza, dezenas de famílias do povo indígena Tapeba ficaram desalojadas no bairro Tabapuazinho, após o Rio Ceará transbordar. O ápice do alagamento ocorreu em 19 de abril, quando o município registrou mais de 115 mm de chuva, que resultaram também na inundação do bairro Picuí.

Já na Vila de Jericoacoara, no Litoral Norte, um dos principais destinos turísticos do Nordeste, as precipitações do último sábado (25) transformaram ruas em rios e afetaram diretamente a circulação de visitantes. A força da água abriu buracos e valas, deixando veículos atolados e forçando o cancelamento de passeios. No domingo (26), a Prefeitura local precisou bloquear vias para fazer reparos emergenciais com tratores.

Na Capital, a comunidade Vila Gomes, na Aerolândia, convive com o medo desde o dia 12 de abril, quando o muro de um terreno da Base Aérea de Fortaleza desabou parcialmente devido às chuvas. O incidente causou a invasão de lama em pelo menos 45 casas e a interdição de uma vila com 21 famílias pela Defesa Civil, por alto risco de desabamento.

A comunidade atribui o problema a obras de expansão no Aeroporto de Fortaleza, que teriam bloqueado a drenagem natural da área. Conforme relatado pelo Diário do Nordeste, muitas famílias permanecem em estado de alerta, temendo novos desmoronamentos diante da previsão de continuidade das chuvas.

Cidades mais resilientes

O geógrafo Luciano de Paula Filho, especialista em análise geoambiental, ordenação e produção do território, ressalta que a quadra chuvosa no Ceará já é um fenômeno climático esperado dentro da dinâmica do semiárido e da atuação da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). O problema, na realidade, está “na forma como as cidades foram se organizando ao longo do tempo”.

Para o especialista, os óbitos registrados por afogamentos e deslizamentos em 2026 revelam um padrão de ocupação de áreas ambientalmente frágeis, como planícies de inundação de rios e riachos, encostas instáveis e margens de drenagens naturais.

Isso evidencia uma desconexão histórica entre o planejamento urbano e a base físico-natural do território. Cidades resilientes não são aquelas que reagem bem ao desastre, mas aquelas que incorporam o risco como variável de projeto.
Luciano de Paula Filho
Geógrafo


Sem conhecimento preciso do terreno, incluindo curvas de nível, rede de drenagem natural e áreas de risco, “qualquer plano de planejamento ou contingência, se não estiver fadado ao fracasso, andará bem perto disso”.

Segundo o geógrafo, o gerenciamento de desastres deve deixar de seguir uma lógica assistencialista, que atua somente após os sinistros, e partir para um trabalho de prevenção que inclua estudos como:

levantamento topográfico planimétrico e altimétrico;
georreferenciamento de imóveis;
zoneamento geoambiental;
planos de recuperação de áreas degradadas (PRAD);
ordenamento do uso do solo com base no risco, aliado à regularização fundiária ambiental (Reurb);
infraestrutura de drenagem compatível com o clima local;
planos de gerenciamento de resíduos sólidos (PGRS) que evitem a obstrução de canais.
“A chuva não cria vulnerabilidades, mas as revela. Os eventos recentes não devem ser tratados como fatalidades, eu os vejo como sinais claros de que precisamos evoluir no planejamento, ocupação e gestão de nossas cidades”, conclui Luciano.

Quadra chuvosa de 2026
O primeiro prognóstico de chuvas para o trimestre de fevereiro a abril de 2026, divulgado pela Funceme em janeiro, previa 40% de chances iguais de chuvas dentro ou abaixo da média no período. As chances de as precipitações ficarem acima da média eram menores, de apenas 20%. Os percentuais permaneceram os mesmos no novo prognóstico para março, abril e maio, liberado no fim de fevereiro.

Até o segundo mês do ano, a Fundação reforçava que a configuração das chuvas era reflexo do cenário de incerteza no oceano Atlântico Tropical, especialmente em relação às anomalias de temperatura, uma vez que os sistemas meteorológicos têm se mostrado de duração restrita.

Apesar dessa incerteza, o primeiro quadrimestre do ano se enquadra dentro da normalidade para o período: o esperado é que chovam 618.3 mm, e até a tarde desta segunda-feira, faltando três dias para concluir o mês, já choveram 609 mm. Os dados devem ser consolidados em breve.

Fonte- Diário do Nordeste

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