A possível convocação de Neymar para a Copa do Mundo FIFA 2026 escancara um problema antigo do futebol brasileiro: o apego exagerado a ídolos que já não conseguem corresponder dentro de campo ao tamanho da própria fama.
Durante anos, o Brasil girou em torno de Neymar. A Seleção foi montada para servi-lo, protegê-lo e transformá-lo em protagonista absoluto. O resultado? Frustrações consecutivas em Copas do Mundo, eliminações traumáticas e uma geração inteira acostumada a vender esperança antes mesmo da bola rolar.
É impossível negar o talento de Neymar. Talvez tenha sido o jogador brasileiro mais habilidoso desde Ronaldinho Gaúcho. Mas futebol de Seleção não vive de lembranças, vídeos antigos ou campanhas publicitárias. Vive de desempenho, intensidade e entrega — exatamente os pontos que hoje geram dúvidas sobre o camisa 10.
A insistência em tratar Neymar como indispensável beira a dependência emocional do futebol brasileiro. Enquanto outras seleções renovaram seus ciclos e apostaram em atletas mais preparados fisicamente e mentalmente, o Brasil segue discutindo se deve entregar novamente a responsabilidade a um jogador que passou mais tempo lesionado do que decisivo nos últimos anos.
O mais curioso é perceber que a atual geração talvez seja a primeira em muito tempo capaz de sobreviver sem Neymar. Vini Jr. se transformou em protagonista no maior clube do mundo. Raphinha amadureceu. Endrick surge como símbolo de uma nova mentalidade mais competitiva e menos midiática. Ainda assim, parte da torcida e da imprensa continua presa ao passado, como se o Brasil precisasse obrigatoriamente de um “salvador”.
Se Carlo Ancelotti convocar Neymar apenas pelo nome, estará mandando um recado perigoso: no futebol brasileiro, história pesa mais do que meritocracia. E isso seria um desrespeito com jogadores que atravessaram toda a temporada em alto nível e chegam fisicamente prontos para a maior competição do planeta.
Existe também um aspecto que poucos têm coragem de admitir: Neymar virou muito mais celebridade do que referência esportiva. Suas manchetes frequentemente aparecem fora do campo. Em vários momentos, sua imagem esteve mais ligada ao entretenimento, às polêmicas e às redes sociais do que ao protagonismo esportivo que dele se esperava.
A Copa de 2026 pode representar duas coisas para o Brasil: a libertação definitiva da “Neymardependência” ou mais um capítulo de um ciclo que insiste em não terminar. O futebol brasileiro precisa decidir se quer construir um novo futuro ou continuar refém de um passado que já não entrega os resultados prometidos.
