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Quando a aposta deixa de ser entretenimento e passa a ameaçar vidas

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As apostas virtuais, popularmente conhecidas como bets, ganharam espaço na rotina de milhões de brasileiros. Estão no celular, nas redes sociais, nos sites e, principalmente, associadas ao esporte. A promessa de diversão e de dinheiro fácil, porém, pode esconder uma realidade muito mais preocupante: para algumas pessoas, o que começa como entretenimento pode se transformar em dependência, endividamento, isolamento e profundo sofrimento emocional.

Não se trata de demonizar toda e qualquer aposta. O problema surge quando o jogo deixa de ser uma atividade eventual e passa a ocupar o centro da vida do indivíduo. A perda de controle, a tentativa insistente de recuperar dinheiro perdido, o aumento das apostas e o esconderijo das dívidas são sinais de que algo deixou de ser recreativo e passou a exigir atenção.

E é justamente nesse ponto que precisamos falar sobre saúde mental.

O sofrimento provocado pelo jogo problemático não termina na conta bancária. Ele pode atingir relacionamentos, trabalho, autoestima e a própria percepção que a pessoa tem de seu futuro. Dívidas podem trazer culpa e vergonha; a vergonha pode levar ao isolamento; e o isolamento pode aprofundar quadros de ansiedade e depressão.

Por isso, falar sobre prevenção ao suicídio também significa olhar para os fatores que podem empurrar uma pessoa para uma situação de desesperança.

Um dos maiores erros é tratar o dependente em apostas como alguém simplesmente irresponsável ou sem força de vontade. A dependência precisa ser encarada como uma questão de saúde e receber acolhimento e tratamento adequados. Julgar pode afastar. Escutar pode salvar.

Família e amigos também possuem papel fundamental. Mudanças bruscas de comportamento, afastamento social, desesperança, aumento do consumo de álcool, problemas financeiros graves e, principalmente, falas relacionadas à morte ou à falta de vontade de viver não devem ser ignoradas.

É preciso perguntar, conversar e buscar ajuda.

Também precisamos discutir a responsabilidade coletiva. As apostas virtuais estão disponíveis praticamente 24 horas por dia e são promovidas em um ambiente de intensa exposição digital. A publicidade, o esporte e as redes sociais ajudam a tornar esse comportamento cada vez mais presente e, em alguns casos, podem contribuir para a normalização de uma prática que já está causando sofrimento.

A regulamentação é importante, mas não pode ser o ponto final do debate. Poder público, empresas, plataformas digitais, profissionais de saúde, entidades esportivas, imprensa e sociedade precisam discutir mecanismos cada vez mais eficazes de prevenção e proteção às pessoas vulneráveis.

Não podemos esperar que alguém perca tudo para perceber que existe um problema.

O debate sobre as bets precisa ultrapassar a discussão sobre dinheiro, impostos, mercado e entretenimento. Existe uma dimensão humana que não pode ser ignorada. Por trás de uma dívida pode existir uma família sofrendo. Por trás de uma conta bloqueada pode existir uma pessoa desesperada. E por trás de um comportamento aparentemente repetitivo pode existir alguém precisando de ajuda.

Neste Setembro Amarelo, a mensagem precisa ser clara: falar sobre sofrimento psíquico não incentiva o suicídio. Falar pode abrir uma porta para o acolhimento e para o tratamento.

Se houver risco imediato de suicídio, a pessoa não deve ficar sozinha e deve receber atendimento de urgência. O Samu atende pelo 192. Para quem precisa conversar e está em sofrimento emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito pelo 188, 24 horas por dia.

A aposta pode até começar com um clique. Mas quando ela passa a controlar a vida de alguém, a sociedade precisa apertar o botão de alerta.

Porque nenhum lucro, nenhuma aposta e nenhum jogo valem mais do que uma vida.

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