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Engenheira é exonerada após denunciar assédio sexual de presidente de órgão de trânsito no CE

Três meses após a denúncia, o caso segue em andamento na Polícia Civil.
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Três meses após uma engenheira denunciar formalmente que foi vítima de crimes sexuais por parte do presidente da Autarquia Municipal de Trânsito (AMT) do Eusébio e com o caso ainda em andamento na Polícia Civil do Ceará (PCCE), a mulher foi surpreendida com a sua exoneração do cargo.

A Prefeitura do Eusébio publicou portaria no dia 7 deste mês de agosto oficializando a saída da vítima do cargo de gerente de Engenharia de Trânsito. O comunicado veio 10 dias após o término da licença de saúde da vítima e dias depois dela ser chamada à comparecer na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) para apresentar provas sobre o crime sexual sofrido pelo então gestor.

“Me colocaram para fora da Prefeitura depois do assédio se tornar público e isso é total irresponsabilidade da gestão. Ao invés de eu ser ouvida, acolhida, fui demitida. Saio mais uma vez ridicularizada e exposta dessa situação. Estou em tratamento médico psiquiátrico, tendo crise de pânico, enquanto eu não fiz nada de errado”, afirma a engenheira.

O Diário do Nordeste procurou a Prefeitura a fim de saber os motivos para a exoneração da colaboradora. No entanto, o órgão não se posicionou até a edição desta matéria.

De acordo com a lei, o assédio é crime quando praticado por superior hierárquico ou ascendente.

CRIME CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL
A Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) diz que investiga as circunstâncias de um crime contra a dignidade sexual registrado, por meio de um Boletim de Ocorrência (B.O.), em maio deste ano, no município de Eusébio, na Área Integrada de Segurança Pública 15 (AIS 15) do Ceará.

“As oitivas e demais diligências seguem em andamento com o objetivo de esclarecer as circunstâncias do caso. A investigação está a cargo da 2ª Delegacia de Defesa da Mulher de Fortaleza, unidade responsável pela apuração dos fatos”, segundo a PCCE.

Outras mulheres também relataram à reportagem terem sofrido assédio do agora ex-presidente da AMT do Eusébio.

O nome do suspeito será preservado nesta matéria, porque a investigação segue em andamento. A identidade das colaboradoras também não será divulgada.

Procurado pela reportagem no último mês de junho, o secretário negou as acusações e disse que “pedi minha exoneração do cargo, para que as autoridades competentes ficassem a vontade para a apuração dos fatos”.

A vítima também reclama que atualmente não está com medida protetiva em vigência.

“O MP encaminhou o pedido para o Eusébio e o promotor do Eusébio disse que não tinha competência. O pedido agora está no Tribunal de Justiça e eu continuo desprotegida de todos os lados”.

O Ministério Público do Ceará (MPCE) disse em nota que “o processo foi remetido ao Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE) e que aguarda decisão do Poder Judiciário”.

O Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) também foi procurado e disse que o caso tramita em segredo de Justiça, motivo pelo qual não poderiam repassar informações.

“Processos que envolvem assuntos de natureza sexual e/ou medidas protetivas de urgência em favor de mulheres vítimas de violência tramitam em segredo de Justiça, conforme previsto na legislação”, informou o TJCE.

‘TÁ BONITA HOJE, VOU TIRAR FOTO’
O Diário do Nordeste conversou com a vítima e com outras mulheres subordinadas à gestão, que afirmam que o suspeito costuma repetir o mesmo modus operandi de assédio contra diversas colaboradoras: “ele começou elogiando minhas roupas, pele, cabelo, unhas, pernas…”.

A importunação sexual disfarçada de ‘elogios’ virou caso de Polícia quando, após meses sofrendo assédio, a engenheira registrou um boletim de ocorrência.

“Ele tocou nos meus braços, nas minhas pernas, sem o meu consentimento. Me chamava pra sair, convidando para viagens e pedindo sempre foto de biquíni. Dizia: ‘tá muito bonita hoje, vou tirar uma foto’. Isso já pegando o celular e mirando”, disse a vítima.

“Com o tempo vieram as frases com teor de brincadeira, mas que eram constrangedoras pra mim… Ele dizia que queria tirar foto minha para ficar olhando no fim de semana. Sempre me referi a ele com bastante educação, dizendo que eu não gostava dessas brincadeiras. Isso foi piorando com o tempo. Ele perguntava se eu gostava de andar de moto, dizia que ia me levar para andar de moto até Aracati…”

Ela conta que as ‘investidas’ se agravaram, tendo uma vez o suspeito “pegado no pescoço e puxado”.

“Dizia que quando ia dormir colocava minha foto na cabeceira dele para dormir bem… Sempre falava rindo, no ‘se colar colou’. Esses assédios aconteciam sempre quando eu estava sozinha com ele. Ele fazia de um jeito para não deixar rastros. Nunca gostei, nunca aprovei essas coisas que ele fazia. Me fez várias vezes repensar sobre o meu trabalho”.

PERSEGUIÇÃO
A engenheira relata que decidiu denunciar formalmente à Polícia quando passou a ser perseguida.

“A partir do momento que eu não cedi aos assédios, ele ficou me desqualificando na instituição. Me chamava de carrancuda, passou a me ter como uma péssima profissional, me ridicularizava nas reuniões. Começou a enviar carros para me perseguir onde eu estava. O que mais me fez criar coragem para denunciar foi que eu estava com meu filho dentro do carro e tinha um carro perto com uma pessoa me filmando. Entrei em desespero. Se uma pessoa é capaz de mandar gente seguir, me caluniar, e difamar, eu não sei mais do que ele é capaz”, relata.

Outra mulher entrevistada pelo Diário do Nordeste disse que quando assumiu um cargo na Autarquia não entendia o porquê de muitas mulheres saírem do local com pouco tempo de atuação.

Uma ex-colaboradora disse à reportagem que “ele não pode ver uma mulher nova. São coisas tão absurdas, perseguição… Trabalhei com ele durante quatro anos, ele ligava 22h, 23h”.

“Ele já chegou a tocar em mim e eu dizia que não. Às vezes ele mandava reduzir meu salário e dizia que era porque eu não estava merecendo. Sofri um tormento por quatro anos. Ele é terrível.”, ainda segundo a ex-colaboradora.

Fonte- Diário do Nordeste

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