A proposta do Governo do Ceará de destinar R$ 2,5 milhões à escola de samba Unidos da Tijuca, do Rio de Janeiro, para o desfile do Carnaval de 2027 coloca em debate uma questão fundamental: como conciliar a promoção do turismo, a valorização da cultura cearense e a responsabilidade com o dinheiro público?
Encaminhado pelo governador Elmano de Freitas (PT) à Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), o projeto prevê o patrocínio ao desfile que terá como inspiração o romance A Cabeça do Santo, da escritora cearense Socorro Acioli. A iniciativa tem uma justificativa compreensível: aproveitar a projeção nacional e internacional do Carnaval carioca para divulgar a literatura, a religiosidade, as tradições e os destinos turísticos do Ceará.
Não se pode negar que a cultura é uma importante ferramenta de promoção econômica. Quando uma obra literária cearense ganha espaço em um dos maiores espetáculos populares do país, abre-se uma oportunidade para despertar o interesse de novos públicos pela produção intelectual do Estado. Se bem executada, a iniciativa poderá contribuir para ampliar a visibilidade de municípios, manifestações religiosas, patrimônios históricos e outros atrativos turísticos cearenses.
Entretanto, o reconhecimento desse potencial não dispensa uma análise criteriosa do investimento. Os R$ 2,5 milhões sairão do orçamento da Secretaria do Turismo do Ceará, ou seja, serão recursos públicos que precisam estar vinculados a objetivos claros, resultados verificáveis e benefícios concretos para a população.
O principal ponto de atenção está nas contrapartidas. Conforme as informações apresentadas sobre o projeto, os detalhes das ações de divulgação a serem realizadas pela Unidos da Tijuca ainda deverão ser definidos em contrato. Portanto, antes da efetivação do repasse, é fundamental que estejam estabelecidos os compromissos da agremiação, os espaços de exposição da marca Ceará, as estratégias de promoção dos destinos turísticos e os mecanismos de fiscalização e prestação de contas.
Não basta que o nome do Ceará apareça na avenida. É necessário demonstrar de que maneira essa exposição poderá se transformar em interesse turístico, fortalecimento da economia local e oportunidades para os profissionais da cultura. Transparência e planejamento são indispensáveis para que o patrocínio não fique restrito ao impacto visual de um desfile, mas produza resultados que possam ser avaliados pela sociedade.
Outro aspecto importante é a valorização dos artistas, escritores, grupos populares e instituições culturais do próprio Estado. A iniciativa inspirada na obra de Socorro Acioli pode servir como ponto de partida para uma política mais ampla de divulgação da cultura cearense, que também contemple investimentos na produção local, na circulação de artistas e na preservação do patrimônio material e imaterial.
A discussão, portanto, não deve se limitar a uma oposição entre investir no Carnaval do Rio ou apoiar a cultura do Ceará. A questão central é assegurar que uma estratégia de promoção turística realizada fora do Estado tenha objetivos bem definidos e seja acompanhada de benefícios compatíveis com o volume de recursos investidos.
Cabe agora à Assembleia Legislativa examinar a proposta, avaliar sua fundamentação e cobrar informações sobre as contrapartidas previstas. Se o projeto for aprovado, o acompanhamento da execução contratual e a divulgação dos resultados serão tão importantes quanto a autorização inicial do patrocínio.
Promover o Ceará para o Brasil e o mundo é um objetivo legítimo. Valorizar a literatura de Socorro Acioli e a identidade cultural cearense também é necessário. Mas toda iniciativa financiada com dinheiro público deve responder a uma pergunta essencial: quais benefícios concretos essa ação entregará à população cearense?
É essa resposta, sustentada por transparência, metas e resultados, que deverá justificar o investimento de R$ 2,5 milhões. Afinal, a cultura pode projetar a imagem de um Estado, mas é a responsabilidade na aplicação dos recursos públicos que dá legitimidade a essa projeção.
