O Parque Nacional de Jericoacoara, no litoral oeste do Ceará, abriga uma população estimada em pelo menos 600 jumentos que vivem livremente na unidade de conservação. A presença desses animais preocupa autoridades ambientais e pesquisadores, que buscam identificar possíveis impactos sobre a biodiversidade e riscos de transmissão de doenças.
De acordo com um levantamento do Centro Universitário Inta (UNINTA), os animais são considerados errantes, pois descendem de jumentos domésticos abandonados por antigos proprietários ao longo dos anos. Sem os cuidados necessários, como vacinação, vermifugação e acompanhamento veterinário, eles podem ficar mais vulneráveis a enfermidades.
Para investigar os efeitos dessa população sobre o ambiente, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela administração do parque, firmou um acordo de cooperação com o UNINTA. A parceria, com duração prevista de cinco anos, contempla duas frentes principais: o monitoramento e o manejo dos animais.
Segundo a Coordenação de Manejo de Espécies Exóticas Invasoras do ICMBio, a iniciativa pretende desenvolver medidas de prevenção e controle fundamentadas em evidências científicas, buscando reduzir possíveis danos ambientais e sanitários.
O trabalho também vai avaliar as condições de saúde dos jumentos e os riscos que eles podem representar para os seres humanos e outras espécies que habitam a reserva. Os pesquisadores realizam inspeções periódicas, vacinação e coleta de sangue e tecidos para análises laboratoriais. Após os procedimentos, os animais são devolvidos ao parque.
Um dos fatores que aumentam a preocupação dos especialistas é a proximidade da unidade de conservação com a Vila de Jericoacoara. Ao circular pela área urbana em busca de alimentos, inclusive no lixo, os jumentos podem entrar em contato com cães, gatos, ratos e parasitas potencialmente transmissores de doenças.
Entre as enfermidades investigadas estão raiva, leishmaniose, influenza, doenças transmitidas por carrapatos e Febre do Nilo Ocidental. Caso sejam identificados animais doentes, o projeto prevê a adoção de medidas de tratamento, seguindo as recomendações da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Ceará (Adagri).
A pesquisa sobre os jumentos já vinha sendo realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde no Semiárido do UNINTA havia cerca de três anos. Com o novo acordo, as atividades passam a ser conduzidas conjuntamente pelas equipes da instituição de ensino e do ICMBio.
Uma das possibilidades avaliadas para controlar o crescimento da população é a castração de machos. A estratégia, entretanto, divide opiniões entre especialistas e deve ser considerada com cautela, diante da necessidade de compreender melhor os efeitos da presença dos animais no parque.
A professora Débora Façanha, da Universidade Federal do Ceará (UFC) e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Animal da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), questiona a realização de castrações sem uma avaliação aprofundada. Especialista em conservação de recursos genéticos, com ênfase no jumento nordestino, ela alerta para os riscos de intervenções em uma população cuja situação exige atenção.
O ICMBio, por sua vez, considera que o manejo também pode contribuir para reduzir conflitos com as atividades humanas, especialmente os atropelamentos de jumentos nas estradas que atravessam o parque. A autarquia defende que eventuais medidas sejam adotadas de maneira gradual e humanitária, conciliando a segurança dos visitantes e moradores com a conservação ambiental.
O pesquisador Bruno Marques Teixeira, integrante da parceria pelo UNINTA, afirma que a castração dependerá dos resultados dos estudos. Segundo ele, ainda é necessário determinar se os animais provocam impactos significativos sobre a biodiversidade e avaliar a evolução da população antes de definir as medidas mais adequadas.
A presença dos jumentos já era apontada como um fator restritivo no Plano de Manejo do Parque Nacional de Jericoacoara, publicado em julho de 2021, que previa a remoção de animais domésticos ou asselvajados da unidade. Com a nova parceria, o monitoramento científico deverá orientar as decisões sobre o futuro desses animais, buscando equilibrar a proteção dos ecossistemas e o manejo responsável da população.
Fonte: Diário do Nordeste
