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Anticorpos que atravessam a placenta: como a vacina da mãe protege o bebê antes do nascimento

Os anticorpos produzidos ao longo da vida, seja após infecções ou vacinas, podem ser transmitidos ao feto.
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Durante a gestação, o bebê depende completamente do organismo da mãe para receber oxigênio, nutrientes e proteção. Entre os mecanismos mais importantes está a transferência de anticorpos pela placenta, que permite ao recém-nascido chegar ao mundo com parte da defesa imunológica da mãe.

Os anticorpos produzidos ao longo da vida, seja após infecções ou vacinas, podem ser transmitidos ao feto. A principal classe responsável por essa transferência é a imunoglobulina G (IgG), que consegue atravessar a placenta e chegar à circulação do bebê.

Esse processo pode ser direcionado por meio da vacinação durante a gestação. Ao receber determinados imunizantes, a mãe produz anticorpos específicos que posteriormente são transferidos ao bebê, oferecendo proteção principalmente nos primeiros meses de vida, quando o sistema imunológico da criança ainda está em desenvolvimento.

O Brasil possui um dos programas de imunização mais abrangentes do mundo, mas a queda nas coberturas vacinais trouxe de volta doenças que haviam sido controladas. Em 2024, por exemplo, o país registrou o maior coeficiente de incidência de coqueluche desde 1990. Naquele ano, 29 bebês com menos de 1 ano morreram em decorrência da doença. Segundo Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), 24 deles eram filhos de mães que não haviam sido vacinadas.

A coqueluche, porém, não foi o único alerta. A bronquiolite provocada principalmente pelo vírus sincicial respiratório (VSR) também representa uma ameaça importante aos bebês. Em 2024, 537 crianças com menos de 1 ano morreram no Brasil em decorrência da doença.

Para reduzir esse risco, o SUS incorporou, em dezembro de 2025, a vacina contra o VSR. O imunizante passou a ser oferecido às gestantes a partir da 28ª semana de gravidez, com o objetivo de permitir que os anticorpos produzidos pela mãe sejam transferidos ao bebê antes do nascimento.

Segundo Kfouri, a adesão à vacina contra o VSR já se aproxima de 85%.

Como os anticorpos chegam ao bebê

A placenta funciona como uma espécie de filtro entre a circulação materna e a fetal. A IgM, um anticorpo produzido rapidamente diante de uma infecção, é grande demais para atravessar essa barreira.

Já a IgG é menor e consegue passar. Esse transporte não acontece de maneira aleatória. Um receptor chamado FcRn identifica a IgG e facilita sua passagem pela placenta até a circulação do bebê.

Existe ainda outro mecanismo de proteção. A imunoglobulina A (IgA), que atua principalmente nas mucosas da boca, intestino e vias respiratórias, não atravessa a placenta, mas pode chegar ao bebê depois do nascimento por meio do leite materno.

Por que o momento da vacinação é importante

A transferência de anticorpos pela placenta aumenta conforme a gestação avança. Por isso, cada vacina possui uma janela específica de aplicação.

No Brasil, a dTpa, que protege contra difteria, tétano e coqueluche, é recomendada a partir da 20ª semana de gestação. Já a vacina contra o VSR é indicada a partir da 28ª semana.

A escolha dessas fases busca garantir tempo suficiente para que o organismo da mãe produza anticorpos e para que eles sejam transferidos ao bebê antes do parto.

Em algumas situações, como em determinadas doenças autoimunes, a transferência pode ser menos eficiente. Bebês prematuros também podem receber uma quantidade menor de anticorpos maternos porque tiveram menos tempo de exposição à transferência placentária.

A vacinação também protege a mãe

A proteção não é exclusiva do bebê. A própria gestante pode apresentar maior risco de complicações diante de algumas infecções.

Influenza e covid-19, por exemplo, podem ser mais graves durante a gravidez, aumentando o risco de hospitalização e outras complicações.

Durante a pandemia, estudos mostraram um impacto especialmente grave da covid-19 entre gestantes. Pesquisas apontaram maior probabilidade de hospitalização, internação em UTI e necessidade de ventilação mecânica entre mulheres grávidas infectadas.

A infecção também pode aumentar riscos para o bebê, incluindo prematuridade e natimortalidade.

Desinformação ainda é um dos principais obstáculos

Apesar dos benefícios comprovados, a vacinação durante a gravidez ainda enfrenta resistência, especialmente por causa da desinformação.

A vacina contra a covid-19 apresenta atualmente uma das menores coberturas entre as gestantes. Boatos sobre infertilidade, segurança e supostos riscos ao feto continuam circulando nas redes sociais.

Também houve dúvidas relacionadas às vacinas mais recentes, como a do VSR, principalmente sobre um possível aumento do risco de parto prematuro. Dados obtidos após a utilização do imunizante em larga escala contribuíram para reforçar sua segurança.

Outro receio comum é a ideia de que a vacina possa transmitir a doença ao bebê. As vacinas recomendadas atualmente para gestantes dTpa, gripe, VSR e covid-19 não utilizam microrganismos vivos capazes de provocar essas doenças.

Especialistas destacam que a avaliação não deve considerar apenas o possível risco associado à vacinação, mas também os riscos de permanecer desprotegida durante a gravidez.

O que a ciência ainda investiga

Apesar dos avanços, ainda existem questões a serem esclarecidas. Pesquisadores buscam entender por que algumas gestantes transferem anticorpos de forma mais eficiente que outras, qual é o momento ideal para cada vacina e por quanto tempo a proteção materna permanece no organismo do bebê.

Também são estudados os efeitos da aplicação simultânea de diferentes vacinas e o chamado blunting, fenômeno em que níveis elevados de anticorpos maternos podem influenciar parcialmente a resposta imunológica do bebê a algumas vacinas recebidas posteriormente.

Outro desafio é a participação historicamente limitada de gestantes em ensaios clínicos, o que criou lacunas de evidências sobre determinados imunizantes.

A vacinação durante a gravidez, portanto, representa uma oportunidade de proteção dupla: reduz os riscos para a mãe e permite que o bebê receba anticorpos antes mesmo de nascer.

Como resumem especialistas da área, em determinadas situações a vacinação não acontece apesar da gravidez, mas justamente porque existe uma gestação e a possibilidade de proteger mãe e filho simultaneamente.

Fonte: G1

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