No Centro Histórico de São Luís, capital do Maranhão 📍, fachadas descascadas, azulejos centenários que se desprendem e casarões sustentados por escoras improvisadas revelam um cenário de abandono. O título de Patrimônio Cultural Mundial, concedido pela Unesco em 1997, não tem sido suficiente para proteger a região, que se deteriora em ritmo acelerado.
Dos 144 imóveis monitorados pela Defesa Civil, 87 estão em risco crítico de desabamento e outros 58 apresentam risco médio de perda patrimonial. Em maio, dois casarões desabaram na rua da Saúde.
Especialistas ouvidos pelo g1 alertam que a combinação de décadas de falta de manutenção, ausência de políticas públicas permanentes de preservação, ação das chuvas, alta umidade e salinidade ameaçam não apenas os milhares de casarões construídos entre os séculos XVIII e XIX, mas também o próprio reconhecimento internacional que transformou São Luís em referência mundial de patrimônio histórico.
Por outro lado, donos das estruturas ponderam que, além dos custos, superiores ao de uma reforma comum, casarões históricos dependem de projeto especializado e etapas burocráticas para que as obras sejam autorizadas. (leia abaixo)
Como 90% dos imóveis tombados são privados no Centro Histórico de São Luís, o Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (Iphan) afirma que há dificuldade na responsabilização pela falta de manutenção. Por isso, o tema foi levado pelo Ministério Publico Federal (MPF) à Justiça, onde mais de 80 ações que tentam obrigar a conservação dos casarões tramitam.
🧱A arquitetura da cidade tem influência portuguesa. Eles conquistaram a cidade na 1ª metade do século XVII, época da fundação. A influência é visível em detalhes como azulejos, como na arquitetura colonial. (veja o raio-x no infográfico abaixo)
O Governo do Estado anunciou em maio que vai revitalizar de 22 imóveis históricos da capital com recursos do Governo Federal. O pacote, no entanto, não abrange os imóveis sinalizados como mais críticos pela Defesa Civil. (entenda abaixo)
O mapeamento da Defesa Civil é feito desde 2018, por meio de vistorias em imóveis públicos e privados abandonados no Centro Histórico. Os dados são atualizados, principalmente durante o período chuvoso, entre janeiro e maio. O último levantamento foi feito neste ano.
Imóvel privado, patrimônio público
A responsabilidade principal pela conservação e reparação do patrimônio, ainda que tombado, é dos donos – segundo a lei. Ao Iphan e outros órgãos públicos, como a Defesa Civil ou os bombeiros, compete a fiscalização, autorização de obras e orientação técnica.
Para os donos de casarões históricos do Centro de São Luís, o desafio da revitalização vai muito além dos custos: há a necessidade que os projetos de engenharia sejam previamente aprovados pelo Iphan, e também gastos com ações prévias para estabilizar as estruturas antes de iniciar uma reforma.
Proprietário de dois casarões, o empresário Francisco Neto, explicou o que foi preciso fazer na empreitada para reformar seus imóveis.
“O custo começa muito antes da reforma em si. Está nos levantamentos, nos projetos e nas consultorias especializadas. Outro grande desafio é conciliar a preservação histórica com as exigências atuais feitas pelo Iphan, relacionadas à segurança, acessibilidade, instalações elétricas e hidráulicas e prevenção contra incêndios. Na época em que esses imóveis foram construídos, nada disso existia”, explicou o empresário.
Francisco destacou a complexidade de restaurar imóveis históricos sem comprometer suas características originais. Os dois casarões adquiridos por ele deverão ser transformados em uma pousada e um restaurante.
“O desafio é grande, mas a ruína não pode ser o destino de imóveis que carregam uma parte tão importante da história de São Luís”, afirma.
Impacto no turismo e na rotina
Moradores e guias de turismo já sentem os impactos do abandono de casarões no Centro Histórico. A atriz, modelo e dançarina Dandara Ferreira mora na área e conta que já presenciou a queda de rebocos e telhas. Segundo ela, o perigo se agrava no período chuvoso, quando as infiltrações fragilizam ainda mais as construções.
“Já deixei de passar por algumas áreas por medo de desabamento, principalmente onde os casarões apresentam rachaduras e estruturas visivelmente comprometidas”, relatou a moradora.
O multiartista Rob Falcão, que vive há oito anos na Rua do Alecrim, próxima à Praça Deodoro, compartilha da mesma preocupação.
“Existem muitas casas que estão boas para serem reformadas e trazer de volta o uso, daria para morar nelas. Hoje são casas que não têm ninguém e estão sendo destruídas pela falta de cuidado”, lamentou.
A degradação também afeta a imagem de São Luís , segundo quem trabalha no setor de turismo. A guia Emanuelle Mesquita percebe que, enquanto parcela do público se encanta com o conjunto arquitetônico, outra parte questiona o motivo da deterioração.
Emanuelle relembrou a visita de casal que esteve na cidade em 2019 e retornou em 2025 para passar a lua de mel. Segundo ela, os turistas esperavam encontrar melhorias na região, mas se decepcionaram ao ver que casarões continuavam degradados e que espaços culturais que funcionavam nestes casarões, agora, estão de portas fechadas.
Ela contou que o risco estrutural a obriga ainda a alterar o itinerário turístico, mudando os pontos de parada dos grupos de turistas para evitar áreas que estão visivelmente em risco.
“A situação de alguns casarões acaba impactando diretamente o nosso trabalho. Mas, mesmo diante desses desafios, procuramos mostrar aos turistas a grandiosidade do nosso Centro Histórico”, disse.
Fonte- G1
