A estreia de Carlo Ancelotti à frente da Seleção Brasileira deixou mais dúvidas do que certezas. E não foi apenas pelo desempenho coletivo abaixo do esperado diante de Marrocos. O que chamou atenção foi a impressão de que o treinador italiano errou justamente naquilo que dele mais se espera: a leitura do jogo e a montagem da equipe.
Se a escalação inicial já estava definida há semanas, talvez fosse o caso de repensá-la. O futebol moderno não permite decisões baseadas apenas em convicções pessoais. É preciso observar momento, características e encaixe tático. E algumas escolhas feitas por Ancelotti simplesmente não funcionaram.
A aposta em Igor Thiago como referência ofensiva revelou-se equivocada. O atacante pode ter disposição e força física, mas vestir a camisa da Seleção Brasileira exige algo além da luta. Exige técnica, repertório e capacidade de participar da construção das jogadas. Faltou tudo isso.
Raphinha também teve uma atuação preocupante. Seja centralizado ou aberto pela direita, praticamente não participou do jogo. Foi uma peça nula em campo, incapaz de criar desequilíbrios ou oferecer alternativas ofensivas. Sua permanência por tanto tempo em campo é difícil de compreender.
Na defesa, Ibanez protagonizou uma apresentação desastrosa. Parecia perdido, inseguro e sem qualquer sintonia com os companheiros. Para um jogador acostumado a grandes competições, a atuação teve a aparência de uma estreia nervosa e sem preparação.
O meio-campo também decepcionou. Casemiro e Paquetá estiveram longe de seus melhores dias. Sem intensidade, sem criatividade e sem comando, permitiram que Marrocos controlasse boa parte da partida.
Mais uma vez, Vinícius Júnior apareceu como o principal nome da equipe. Foi dele a jogada que evitou um resultado ainda mais constrangedor. No entanto, nem mesmo o craque escapou das críticas. Após o gol, exagerou nas tentativas individuais e deixou de lado o jogo coletivo em diversos momentos.
O retrato mais fiel dos erros de Ancelotti talvez esteja nas alterações realizadas. Mudar cinco posições para tentar corrigir a equipe durante a partida é praticamente uma admissão de que a formação inicial foi montada de maneira equivocada. O treinador percebeu os problemas, mas eles já estavam evidentes para quem assistia ao primeiro tempo.
É claro que Marrocos possui uma seleção organizada e competitiva. Não se trata de diminuir os méritos do adversário. Mas a maior dificuldade do Brasil foi enfrentar seus próprios erros. Por longos momentos, a equipe pareceu lutar contra si mesma.
Ancelotti chegou cercado de expectativa, currículo e respeito. Ninguém questiona sua trajetória vitoriosa. Mas a Seleção Brasileira não vive de passado. O que se viu nessa estreia foi um time sem identidade, sem equilíbrio e dependente de lampejos individuais.
Foi apenas o primeiro jogo, é verdade. Ainda há tempo para ajustes. Mas a pergunta permanece: precisava ser tão ruim assim? A resposta, infelizmente, parece ser não. E isso torna a atuação ainda mais preocupante.
