Um antigo casarão localizado na Avenida Imperador, no Centro de Fortaleza, voltou a chamar atenção por causa de mudanças na fachada e de danos identificados no interior do imóvel.
Conhecido como “prédio do Dnocs”, o imóvel, situado no número 1313, pertence à União e foi cedido por 20 anos ao Município de Icapuí, que pretende instalar no local uma casa de acolhimento.
A situação ganhou repercussão após uma denúncia do projeto “Fortaleza a Pé”, do turismólogo e pesquisador Gerson Linhares, sobre a descaracterização do imóvel, que possui tombamento provisório desde 2012.
Além do muro construído na área frontal, foram identificados danos no interior do casarão, como paredes rompidas, tijolos expostos e restos de materiais de construção. Segundo a Prefeitura de Icapuí, os estragos teriam relação com uma obra realizada no imóvel vizinho.
A Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) autuou o responsável pela obra no dia 10 de agosto. Entre as irregularidades apontadas estão a ausência de documentação relacionada ao gerenciamento de resíduos, a execução da obra sem licença municipal e danos a construções integrantes do patrimônio cultural.
Como o casarão possui tombamento provisório, eventuais danos ou descaracterizações podem resultar em penalidades e até na obrigação de recompor ou restaurar elementos do patrimônio protegido. O responsável pela obra ainda está dentro do prazo para apresentar defesa.
Imagens registradas por funcionários do Município de Icapuí mostram paredes danificadas, estruturas de alvenaria expostas, entulho e materiais espalhados pelo imóvel. A Prefeitura afirma que ainda não iniciou a reforma do casarão e que realizou apenas serviços de limpeza no local.
A história do prédio remonta a mais de um século. O imóvel foi residência da família Markan e chegou a abrigar Joaquim Markan, empresário ligado à fabricação de cigarros em Fortaleza. Seu filho, o antropólogo Geraldo Markan, nasceu no casarão em 1929.
Décadas depois, o imóvel passou a fazer parte da história do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs). A construção abrigou o Serviço de Piscicultura do órgão, que atuava na criação de peixes e em ações de combate às piranhas em diferentes regiões do Nordeste.
Em 1958, o endereço também recebeu o Museu Rodolpho von Ihering, reforçando sua importância para a história científica e cultural do Ceará.
A Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza (Secultfor) informou que registros de 2025 já mostravam a existência do muro na fachada e afirmou que pretende solicitar a recuperação do imóvel, tomando como referência as características existentes no momento do tombamento provisório.
A Superintendência do Patrimônio da União no Ceará (SPU-CE) confirmou que a cessão para Icapuí prevê obras de adequação e melhorias. O órgão informou, porém, que não tinha conhecimento de intervenções na fachada e poderá solicitar esclarecimentos à Prefeitura.
O Município de Icapuí já possui projeto, planta e orçamento para a reforma, mas depende da obtenção de recursos. A última avaliação divulgada pela SPU apontou que o casarão está avaliado em cerca de R$ 4,7 milhões.
Para Gerson Linhares, o caso representa um problema maior enfrentado pelo Centro Histórico de Fortaleza. Segundo o pesquisador, a falta de manutenção, funcionários e utilização adequada dos imóveis históricos contribui para o avanço da deterioração e para a perda de referências importantes da memória da cidade.
A situação do casarão reacende o debate sobre a necessidade de preservar o patrimônio histórico de Fortaleza e garantir que intervenções em imóveis protegidos sejam realizadas dentro das normas de conservação.
Fonte: Diário do Nordeste
